Bolsa-de-Pastor (Capsella bursa-pastoris): Propriedades e Benefícios

Capsella bursa-pastoris (L.) Medik. / Bolsa-de-Pastor, conhecida popularmente como bolsa-de-pastor, erva-do-bom-pastor e panacéia, é uma planta herbácea anual da família Brassicaceae, descrita por Carl Linnaeus em 1753 e validada por Friedrich Kasimir Medikus em 1792. Originária da Eurásia, esta espécie disseminou-se por todos os continentes, sendo considerada uma planta ruderal comum em muitas partes do mundo, especialmente em climas mais frios. A bolsa-de-pastor é utilizada há milénios na medicina tradicional, sendo mencionada em textos antigos pela sua capacidade de estancar hemorragias. As suas pequenas flores brancas e os frutos triangulares, que se assemelham a uma bolsa antiga de pastor, são colhidos para a preparação de infusões, tinturas e outros produtos fitoterapêuticos.

Na tradição herbária europeia e asiática, a bolsa-de-pastor ocupa um lugar de destaque como planta adstringente e hemostática. As suas aplicações estendem-se desde o tratamento de hemorragias internas e externas até ao alívio de distúrbios menstruais. A planta é reconhecida pela sua composição fitoquímica rica, especialmente em flavonoides, polipeptídeos e ácidos orgânicos, que conferem as suas propriedades anti-inflamatórias, antioxidantes e antimicrobianas. A investigação científica moderna tem validado muitos dos usos tradicionais da bolsa-de-pastor, consolidando a sua posição como uma das plantas medicinais mais estudadas e utilizadas em todo o mundo.

Nomes Populares e Internacionais da Bolsa-de-Pastor

  • Português: bolsa-de-pastor, bolsa-do-pastor, erva-do-bom-pastor, panacéia.
  • Espanhol: bolsa de pastor, calzoncitos, pan y quesillo, paniquesillo, zurrón de pastor.
  • Inglês: lady’s purse, mother’s heart, pick-pocket, shepherd’s purse.
  • Francês: bourse-à-pasteur, boursette, capselle bourse à pasteur.
  • Italiano: borsa del pastore.
  • Alemão: Hirtentäschel.

Sinónimos Botânicos da Bolsa-de-Pastor

Thlaspi bursa-pastoris L., Bursa bursa-pastoris (L.) Shull, Bursa pastoris (L.) Weber.

Família Botânica: Brassicaceae

A família Brassicaceae, também conhecida como Cruciferae, é uma das maiores famílias de plantas com flores, compreendendo cerca de 370 géneros e mais de 4.000 espécies distribuídas por todo o mundo. Esta família caracteriza-se pelas suas flores com quatro pétalas dispostas em forma de cruz, o que lhe confere o nome alternativo de crucíferas. As Brassicaceae incluem plantas de grande importância económica, alimentar e medicinal, tais como a couve, o brócolos, a mostarda e o rabanete.

A bolsa-de-pastor partilha características morfológicas típicas da família, incluindo flores com quatro pétalas e seis estames, e frutos em síliqua. A família Brassicaceae é conhecida pela produção de compostos bioactivos, especialmente glucosinolatos, flavonoides e ácidos fenólicos, que conferem propriedades medicinais a muitas das suas espécies. A diversidade química desta família tem sido objeto de intensa investigação farmacológica, contribuindo para o desenvolvimento de fitofármacos e suplementos alimentares.

Partes Utilizadas da Bolsa-de-Pastor

  • Flores
  • Folhas
  • Partes aéreas
  • Raízes
  • Sementes

Usos Etnobotânicos e Tradicionais

  • Alívio de hemorragias internas e externas
  • Controle de sangramento menstrual excessivo (menorragia)
  • Redução de hemorragias pós-parto
  • Tratamento de diarreia
  • Uso como alimento em diversas culturas asiáticas

Propriedades Medicinais da Bolsa-de-Pastor

  • Adstringente (ajuda a contrair tecidos e estancar sangramentos)
  • Anti-hemorrágica (reduz e previne hemorragias)
  • Anti-inflamatória (reduz inflamações)
  • Antimicrobiana (combate microrganismos patogénicos)
  • Antioxidante (combate radicais livres)
  • Antitrombina (previne a formação de coágulos sanguíneos)
  • Cicatrizante (promove a cicatrização de feridas)
  • Diurética (aumenta a produção de urina)
  • Hepatoprotetora (protege o fígado)
  • Oxitócica (estimula contrações uterinas)
  • Sedativa (promove o relaxamento)

Perfil Fitoquímico Detalhado da Bolsa-de-Pastor

  • Acacetin
  • Ácido fumárico
  • Ácidos orgânicos
  • Apigenina
  • Choline
  • Flavonoides (kaempferol, luteolina, quercetina, sinensetin)
  • Histamina
  • Polipeptídeos
  • Tiramina

Formas de Preparo e Administração da Bolsa-de-Pastor

  • Chá (infusão)
  • Extratos
  • Tinturas

Sinergia com Outras Plantas

Atividade Antibacteriana

A bolsa-de-pastor demonstra atividade antibacteriana sinérgica quando combinada com Glycyrrhiza glabra (alcaçuz). Esta combinação pode ser eficaz contra patógenos orais, sugerindo um potencial uso em formulações para a saúde bucal. A sinergia entre os compostos bioativos de ambas as plantas pode amplificar os efeitos antimicrobianos, oferecendo uma abordagem natural para combater infecções.

Receitas e Protocolos de Uso

Infusão para Hemorragias Ligeiras

Ingredientes: 1 colher de chá de partes aéreas secas de bolsa-de-pastor, 200 ml de água fervente.

Preparação: Colocar a planta numa chávena e adicionar a água fervente. Tapar e deixar em infusão durante 10 minutos. Coar e consumir. Recomenda-se beber 2 a 3 chávenas por dia para ajudar a controlar hemorragias ligeiras, como sangramentos nasais ou menstruação abundante. Esta infusão aproveita as propriedades adstringentes e hemostáticas da planta.

Tintura para Uso Interno

Ingredientes: 50 g de partes aéreas frescas de bolsa-de-pastor, 250 ml de álcool de cereais a 70%.

Preparação: Picar finamente a planta e colocar num frasco de vidro escuro. Cobrir com o álcool, garantindo que a planta esteja totalmente submersa. Fechar bem e deixar macerar por 2 a 4 semanas em local fresco e escuro, agitando diariamente. Coar e armazenar a tintura em frasco escuro. Tomar 10 a 20 gotas diluídas em água, 2 a 3 vezes ao dia, conforme orientação de um profissional de saúde. A tintura é uma forma concentrada e eficaz para tratar condições que requerem as propriedades sistémicas da planta.

Terapias Associadas

Fitoterapia

Na fitoterapia, a bolsa-de-pastor é valorizada pelas suas propriedades hemostáticas e adstringentes. É frequentemente utilizada no tratamento de menorragia, metrorragia e hemorragias pós-parto. Os extratos padronizados da planta são empregados para garantir a dosagem precisa dos compostos ativos. A fitoterapia moderna reconhece a importância da bolsa-de-pastor como um recurso natural para o manejo de diversas condições relacionadas ao sangramento e inflamação, sendo integrada em protocolos de tratamento complementares.

Homeopatia

Em homeopatia, Capsella bursa-pastoris é um remédio utilizado para tratar condições de sangramento, especialmente hemorragias uterinas com coágulos e dores intensas. É também indicado para problemas urinários, como cistite com urina sanguinolenta. O remédio homeopático é preparado a partir da planta fresca, seguindo as diluições e dinamizações específicas da homeopatia. A escolha da potência e frequência de administração depende da totalidade dos sintomas do paciente e deve ser determinada por um homeopata qualificado.

Contraindicações e Efeitos Colaterais da Bolsa-de-Pastor

Contraindicações Gerais

A bolsa-de-pastor é contraindicada durante a gravidez devido à sua atividade oxitócica, que pode estimular contrações uterinas e potencialmente induzir aborto ou parto prematuro. Mulheres a amamentar devem evitar o uso devido à falta de dados sobre a segurança para o lactente. Indivíduos com doenças cardíacas, renais ou distúrbios da coagulação sanguínea devem usar a planta com cautela e sob supervisão médica, pois pode interagir com medicamentos anticoagulantes ou afetar a pressão arterial. Pessoas com alergia conhecida a plantas da família Brassicaceae também devem evitar o seu uso.

Efeitos Colaterais

Em doses elevadas, a bolsa-de-pastor pode causar irritação gastrointestinal, náuseas e vómitos. Devido às suas propriedades diuréticas, o uso prolongado pode levar a desequilíbrios eletrolíticos. Foram relatados casos raros de reações alérgicas cutâneas. É fundamental respeitar as dosagens recomendadas e procurar aconselhamento médico em caso de reações adversas. A interação com medicamentos para a tiroide também é uma preocupação, pois a planta contém glucosinolatos que podem interferir na função tiroideia.

Curiosidades e Fatos Históricos

A Planta Protocarnívora

Uma das curiosidades mais fascinantes da bolsa-de-pastor é a sua classificação como planta protocarnívora. As suas sementes produzem uma substância mucilaginosa que atrai e aprisiona nematóides, pequenos vermes do solo. Embora a planta não os digira ativamente, a decomposição dos nematóides enriquece o solo com nutrientes, beneficiando o crescimento da bolsa-de-pastor. Este mecanismo engenhoso é uma adaptação para prosperar em solos pobres.

A Segunda Mais Prolífica

A Capsella bursa-pastoris é considerada a segunda planta selvagem mais prolífica do mundo, demonstrando uma notável capacidade de adaptação e dispersão. A sua presença é ubíqua em diversos ecossistemas, desde campos cultivados a margens de estradas e prados. Esta resiliência contribui para a sua ampla distribuição geográfica e para a sua persistência como uma espécie de sucesso em diferentes climas e condiçõs.

Nomes Populares e Lendas

O nome popular ‘bolsa-de-pastor’ deriva da forma triangular e achatada dos seus frutos, que se assemelham às bolsas de couro que os pastores usavam antigamente para transportar os seus alimentos. Na Inglaterra e na Escócia, era conhecida como ‘coração de mãe’, associada a um jogo infantil onde se colhia o fruto e, ao rebentar, a criança era acusada de ‘partir o coração da mãe’. Estes nomes refletem a observação popular e a interação cultural com a planta ao longo da história.

Florescimento Contínuo

Ao contrário da maioria das plantas com flores, a bolsa-de-pastor floresce quase todo o ano. Esta característica, combinada com a sua capacidade de produzir várias gerações por ano e um banco de sementes duradouro no solo, contribui para a sua notável adaptabilidade e sucesso reprodutivo. A sua presença constante em diversos ambientes demonstra a sua resiliência e a sua importância ecológica como uma espécie pioneira em solos perturbados.

Perguntas Frequentes sobre o Chá de Bolsa-de-Pastor

Para que serve o chá de bolsa-de-pastor?

O chá de bolsa-de-pastor é tradicionalmente utilizado para estancar hemorragias, especialmente sangramentos menstruais excessivos e hemorragias pós-parto. Possui propriedades adstringentes, anti-inflamatórias e antioxidantes, sendo também empregado para aliviar diarreias e problemas urinários. A sua ação hemostática é a mais reconhecida e estudada, tornando-o um remédio popular para diversas condições hemorrágicas.

Existem contraindicações para o uso do chá de bolsa-de-pastor?

Sim, o chá de bolsa-de-pastor é contraindicado durante a gravidez devido ao seu potencial de estimular contrações uterinas. Mulheres a amamentar, pessoas com doenças cardíacas, renais ou distúrbios de coagulação sanguínea devem evitar o seu uso ou consultar um médico. Indivíduos com alergia a plantas da família Brassicaceae também devem abster-se de consumir o chá. É crucial seguir as recomendações de dosagem e procurar aconselhamento profissional.

Como preparar o chá de bolsa-de-pastor?

Para preparar o chá, utilize 1 colher de chá de partes aéreas secas de bolsa-de-pastor para 200 ml de água fervente. Adicione a planta à água, tape e deixe em infusão por cerca de 10 minutos. Coe e consuma. Recomenda-se beber 2 a 3 chávenas por dia, conforme a necessidade e sempre sob orientação. A preparação correta garante a extração eficaz dos compostos terapêuticos da planta.

Quais são os efeitos colaterais do chá de bolsa-de-pastor?

Em doses elevadas, o chá de bolsa-de-pastor pode causar irritação gastrointestinal, náuseas e vómitos. O uso prolongado pode levar a desequilíbrios eletrolíticos devido às suas propriedades diuréticas. Casos raros de reações alérgicas cutâneas foram relatados. É fundamental respeitar a dosagem e consultar um profissional de saúde se ocorrerem reações adversas. A interação com medicamentos para a tiroide também é uma preocupação.

A bolsa-de-pastor pode ser usada na culinária?

Sim, a bolsa-de-pastor é comestível e utilizada na culinária de diversas culturas, especialmente na Ásia. As folhas jovens podem ser consumidas cruas em saladas, e a planta é um ingrediente comum em sopas, congee e recheios na China. Na Coreia, as raízes são usadas em pratos como o namul. A sua versatilidade culinária adiciona um valor nutricional e sabor único a várias receitas tradicionais.

Referências e Estudos Científicos

  1. Royal Botanic Gardens, Kew. “Capsella bursa-pastoris (L.) Medik.” Plants of the World Online. https://powo.science.kew.org/taxon/urn:lsid:ipni.org:names:30092589-2.
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  7. Cha, J. M. “Phytochemical Constituents of Capsella bursa-pastoris and Their Anti-inflammatory Activity.” Natural Product Sciences. 2018. https://synapse.koreamed.org/upload/synapsedata/pdfdata/0228nps/nps-24-132.pdf.
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  9. Hobbs, Christopher. “Shepherd’s Purse.” Herbal Therapeutics Database. https://christopherhobbs.com/herbal-therapeutics-database/herb/shepherds-purse/.
  10. Health Embassy. “Shepherd’s Purse Herb (Capsella bursa-pastoris L.).” Health Embassy. https://healthembassy.co.uk/shepherd-s-purse-herb-capsella-bursa-pastoris-l/.
  11. Peng, J. “Shepherd’s Purse Polyphenols Exert Its Anti-Inflammatory.” Google Patents. 2019. https://patents.google.com/patent/CN101538297A/en.
  12. Soleimanpour, S. “Synergistic antibacterial activity of Capsella bursa-pastoris and Glycyrrhiza glabra against oral pathogens.” Jundishapur Journal of Microbiology. 2013. https://brieflands.com/journals/jjm/articles/18576.pdf.
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