Gardenia jasminoides (Jasmim-do-Cabo): Perfil Botânico Completo

21 Min de Leitura
9 Referências
Publicado em Atualizado em

O jasmim-do-cabo (Gardenia jasminoides J.Ellis) é um arbusto perenifólio da família Rubiaceae, a mesma linhagem que reúne o café, a quina e a ipeca, e provavelmente o caso mais conhecido de uma planta que conquistou o Ocidente pelo perfume muito antes de ser compreendida pela botânica. As flores brancas e cerosas, solitárias nas pontas dos ramos, liberam um aroma denso que se intensifica no fim da tarde e domina um quintal inteiro sozinho. Foi esse cheiro, e não a folha ou o fruto, que garantiu à espécie um lugar cativo na jardinagem de clima ameno de quase todos os continentes.

Jasmim-do-cabo (Gardenia jasminoides), arbusto perenifólio das Rubiaceae, de flores brancas e cerosas solitárias nas pontas dos ramos.
Arbusto perenifólio das Rubiaceae, de flores brancas e cerosas solitárias nas pontas dos ramos.

A área nativa fica do lado oposto do mundo em relação ao nome popular que a espécie recebeu em português e em inglês. Segundo o Plants of the World Online, do Royal Botanic Gardens, Kew, a distribuição original vai do Himalaia Oriental ao centro e ao sul da China, alcança a Indochina e chega ao sul do Japão, sempre dentro do bioma subtropical. O apelido de jasmim-do-cabo, decalcado do inglês cape jasmine, guarda a memória da rota comercial que trouxe as primeiras mudas para a Europa, com escala no Cabo da Boa Esperança, e não a memória de qualquer origem africana.

Do ponto de vista morfológico, o interesse da espécie está menos na flor exuberante do que no fruto. Enquanto a corola dura poucos dias e apodrece em creme amarelado, a baga costelada amadurece devagar, ganha tom laranja intenso e permanece presa ao arbusto por meses, com o cálice persistente ainda coroando a ponta. É esse fruto que sustenta a longa história econômica da planta na Ásia Oriental, onde os pigmentos que ele acumula abastecem tinturarias e cozinhas há séculos.

Taxonomia

O nome aceito é Gardenia jasminoides J.Ellis, publicado nas Philosophical Transactions of the Royal Society of London, volume 51, parte 2, página 935, em 1761. O registro consta no International Plant Names Index sob o identificador 751073-1, e o Plants of the World Online confirma o binômio como aceito, com nada menos que cinquenta e seis sinônimos associados, herança de dois séculos e meio de descrições paralelas feitas por autores europeus, japoneses e taiwaneses trabalhando sobre plantas de cultivo.

A classificação completa, na espinha dorsal taxonômica adotada pelo Kew, é a seguinte:

  • Reino: Plantae
  • Filo: Streptophyta
  • Classe: Equisetopsida
  • Subclasse: Magnoliidae
  • Ordem: Gentianales
  • Família: Rubiaceae
  • Tribo: Gardenieae
  • Gênero: Gardenia J.Ellis, 1761
  • Espécie: Gardenia jasminoides J.Ellis, 1761

O gênero Gardenia reúne mais de uma centena de espécies aceitas, distribuídas pelas regiões tropicais e subtropicais da África, da Ásia, da Australásia e das ilhas do Pacífico. A tribo Gardenieae, à qual pertence, é tradicionalmente alocada na subfamília Ixoroideae, embora a delimitação interna das Rubiaceae venha sendo reorganizada por estudos filogenéticos moleculares desde os anos 2000.

Sinônimos Homotípicos

Fundados no mesmo tipo nomenclatural do nome de Ellis, todos publicados como nomes supérfluos e, por isso, ilegítimos:

  • Gardenia augusta Merr., Interpr. Herb. Amboin.: 485 (1917), nom. illeg. superfl.
  • Gardenia florida L., Sp. Pl., ed. 2: 305 (1762), nom. illeg. superfl.
  • Genipa florida Baill., Hist. Pl. 7: 307, 379 (1880), nom. illeg. superfl.

Sinônimos Heterotípicos Principais

Entre os cinquenta e três sinônimos heterotípicos reconhecidos, os de circulação mais ampla na literatura hortícola e florística são:

  • Gardenia grandiflora Lour., Fl. Cochinch.: 147 (1790)
  • Gardenia maruba Siebold ex Blume, Bijdr. Fl. Ned. Ind.: 1015 (1826)
  • Gardenia pictorum Hassk., Flora 28: 234 (1845)
  • Gardenia radicans Thunb., Gardenia: 11 (1780)
  • Jasminum capense Mill., Gard. Dict., ed. 8: n.° 7 (1768)
  • Mussaenda chinensis Lour., Fl. Cochinch.: 152 (1790)
  • Varneria augusta L., Amoen. Acad. 4: 136, 138 (1759), gênero não validamente publicado

Vale notar que Gardenia augusta circulou por décadas como se fosse o nome correto da espécie, sobretudo na literatura australiana e norte-americana da segunda metade do século XX, e ainda aparece em etiquetas de viveiro e em catálogos comerciais. Trata-se de um nome supérfluo, sem prioridade sobre o de Ellis, e seu uso hoje é considerado incorreto.

Etimologia do Binômio

O nome genérico homenageia Alexander Garden (1730-1791), médico e naturalista escocês radicado em Charleston, na Carolina do Sul, correspondente assíduo de Lineu e de John Ellis. A escolha, porém, foi a segunda opção. Ellis pretendia batizar o gênero de Warneria, em homenagem a Richard Warner, o horticultor inglês em cujo jardim o exemplar estudado floresceu, mas Warner recusou a honraria. Lineu, por sua vez, já havia empregado a grafia Varneria em 1759, sem publicação genérica válida, e vetou a proposta alternativa de Ellis para o nome Augusta. O epíteto jasminoides significa semelhante ao jasmim, referência direta ao perfume e ao aspecto da corola, ainda que as duas plantas pertençam a famílias distintas e não guardem parentesco próximo.

Descrição Morfológica

Arbusto perenifólio de porte variável, entre 0,3 e 3 metros de altura conforme a forma e as condições de cultivo, com ramificação densa desde a base e copa arredondada e compacta. Os ramos jovens são cilíndricos e puberulentos, e passam a glabros e acinzentados com o lenhoso. As formas rasteiras, correspondentes ao antigo Gardenia radicans Thunb., não passam de meio metro e espalham-se lateralmente, ao passo que exemplares vigorosos de forma típica ultrapassam com folga a altura de uma pessoa.

Folhas

  • Disposição: opostas ou reunidas em verticilos de três
  • Domácias: tufos de pelos frequentes nas axilas das nervuras, na face inferior
  • Estípulas: caliptradas, fundidas em bainha cilíndrica de 4 a 13 milímetros, fendida por cerca de três quartos do comprimento, caráter diagnóstico das Rubiaceae
  • Forma: oblongo-lanceolada, obovada, oblanceolada ou elíptica, com ápice agudo a acuminado e base cuneada
  • Lâmina: de 3 a 25 centímetros de comprimento por 1,5 a 8 centímetros de largura
  • Margem: inteira
  • Nervuras secundárias: 8 a 15 pares, salientes na face inferior
  • Pecíolo: curto, de até 0,5 centímetro, raramente 1 centímetro
  • Textura e cor: cartácea a subcoriácea, verde-escura e lustrosa na face superior, mais clara e opaca na inferior

Flores

As flores nascem solitárias nas extremidades dos ramos, raramente nas axilas superiores, e abrem em sequência ao longo de várias semanas. Cada uma dura de dois a quatro dias, e a passagem do branco puro para o creme amarelado marca o fim da antese com precisão quase cronométrica.

  • Aroma: intenso e doce, com máximo perceptível no fim da tarde e à noite
  • Cálice: tubular e costelado, com 5 a 8 lobos lineares que atingem 40 milímetros e permanecem no fruto
  • Corola: branca ao abrir, hipocrateriforme, com tubo cilíndrico de 30 a 50 milímetros de comprimento por 4 a 6 milímetros de diâmetro e fauce pilosa
  • Estames: inseridos na garganta do tubo, com anteras lineares subsésseis
  • Lobos da corola: em geral 6, variando de 5 a 8 nas formas silvestres, obovados, de 15 a 40 milímetros por 6 a 28 milímetros, muito numerosos nas formas dobradas de cultivo
  • Ovário: ínfero, unilocular, com placentação parietal

Frutos e Sementes

  • Cálice persistente: lobos lineares que permanecem eretos na ponta do fruto maduro
  • Costelas: 5 a 9 cristas longitudinais salientes, por vezes aladas
  • Cor: amarela a laranja-amarelada quando maduro, escurecendo com a desidratação
  • Polpa: alaranjada e corante, manchando com facilidade os dedos e os tecidos
  • Sementes: numerosas, achatadas e angulosas, imersas na polpa
  • Tipo e tamanho: baga ovoide, subglobosa ou elipsoide, de 1,5 a 7 centímetros de comprimento por 1,2 a 2 centímetros de largura

Raiz e Caule

O sistema radicular é fasciculado e superficial, com a maior parte das raízes absorventes concentrada nos primeiros vinte centímetros de solo, arranjo que explica a sensibilidade da espécie tanto ao encharcamento quanto ao ressecamento rápido do substrato. O caule é lenhoso, de casca lisa e parda, e brota com facilidade a partir da base quando podado, o que sustenta a longevidade dos exemplares cultivados. As formas prostradas enraízam nos nós em contato com o solo, hábito que deu origem ao epíteto radicans.

Distribuição e Habitat

A distribuição nativa reconhecida pelo Plants of the World Online abrange Camboja, China centro-norte, China centro-sul, China sudeste, Hainan, Himalaia Oriental, Japão, Laos, Taiwan, Tailândia e Vietnã. Trata-se, portanto, de uma espécie de leque asiático amplo, com centro de diversidade genética no sul da China, onde as populações silvestres ocupam a faixa ao sul do rio Yangtzé e apresentam variação morfológica considerável no tamanho da folha e do fruto.

Fora dessa área, o Kew registra introdução consolidada em Bangladesh, Comores, Coreia, Ilhas Carolinas, Ilhas Marianas, Ilhas Marshall, Ilhas da Sociedade e Ilhas Tubuai. O padrão é revelador: a espécie fixa-se sobretudo em arquipélagos tropicais e subtropicais úmidos, onde o cultivo ornamental antecedeu o escape. Não há registro de comportamento invasor agressivo em nenhum desses territórios, e a expansão local costuma limitar-se às imediações de áreas habitadas. No Brasil, onde é uma das plantas ornamentais mais difundidas em jardins e calçadas, não existe registro de naturalização.

O habitat original são encostas florestais úmidas, bordas de mata, capões de bambu, margens de riachos e campos abertos com solo permanentemente úmido, em altitudes que vão de perto do nível do mar a cerca de 1.500 metros. O clima preferencial é subtropical úmido, com verões quentes, invernos amenos e precipitação bem distribuída, entre 1.000 e 2.000 milímetros anuais. O traço edáfico mais rígido da espécie é a acidez: ela prospera em solos ácidos, ricos em matéria orgânica e bem drenados, e reage mal a substratos calcários ou com pH acima de 7.

Cultivo

A propagação comercial é feita quase toda por estaquia semilenhosa, com estacas de dez a quinze centímetros retiradas no fim da primavera e do verão, mantidas sob nebulização e calor de fundo. O enraizamento leva de seis a oito semanas e ganha uniformidade com auxiliar de enraizamento. A alporquia funciona bem para multiplicar exemplares adultos de porte grande sem esperar o crescimento de mudas, e a semeadura, embora possível, é lenta e desuniforme, com germinação irregular ao longo de trinta a sessenta dias, razão pela qual fica restrita a programas de melhoramento. Em regiões de solo alcalino, a enxertia sobre Gardenia thunbergia é prática antiga de viveirismo, adotada justamente para contornar a intolerância do porta-enxerto original ao pH elevado.

As exigências de cultivo são bem conhecidas e pouco flexíveis. A planta pede sol pleno em climas amenos e sombra nas horas mais quentes da tarde em climas tropicais, substrato ácido entre pH 5,0 e 6,5, umidade constante sem encharcamento e proteção contra ventos secos. Noites frescas favorecem a formação de botões, o que explica a floração mais generosa observada no Sul e no Sudeste do Brasil em comparação com as regiões de noites quentes. A queda de botões antes da abertura é o transtorno mais comum entre jardineiros e costuma decorrer de oscilação térmica brusca, de irrigação irregular ou de mudança de local durante a formação floral.

O quadro sanitário concentra-se em poucos problemas recorrentes:

  • Ácaros: comuns em ambiente seco e abrigado, provocam bronzeamento e queda precoce das folhas
  • Clorose férrica: amarelecimento internerval das folhas novas em solo alcalino, o distúrbio fisiológico mais frequente da espécie
  • Cochonilhas: colonizam a face inferior das folhas e as axilas dos ramos, e sua excreção açucarada abre caminho para fungos
  • Fumagina: revestimento negro superficial associado à presença de cochonilhas, pulgões e moscas-brancas
  • Mosca-branca: infesta a face inferior das folhas em cultivo protegido e em plantios adensados
  • Podridão radicular: causada por fungos de solo do gênero Phytophthora em substratos compactados ou encharcados

Entre as formas hortícolas mais difundidas estão ‘August Beauty’, de floração prolongada e porte médio, ‘Chuck Hayes’, selecionada por rusticidade ao frio, ‘Kleim’s Hardy’, compacta e de flor simples, ‘Mystery’, de flores dobradas grandes, ‘Radicans’, anã e rasteira, e ‘Veitchii’, a mais comum em produção de vaso. A colheita dos frutos, quando existe finalidade de extração de pigmento, ocorre no fim do outono e no inverno, com os frutos já plenamente alaranjados e ainda firmes no ramo.

Fenologia

Na área nativa, a floração vai de março a julho, com pico entre abril e junho, e a frutificação estende-se de maio até fevereiro do ano seguinte, o que significa que flores e frutos de safras sucessivas convivem no mesmo arbusto durante boa parte do ano. No hemisfério sul, o calendário desloca-se para a primavera e o verão, com abertura concentrada entre outubro e março e maturação dos frutos ao longo do outono e do inverno.

A biologia floral aponta para polinização noturna. A corola branca de tubo estreito e longo, a antese vespertina e a emissão de aroma que se intensifica com o anoitecer compõem o conjunto clássico das flores adaptadas a mariposas de língua longa, sobretudo esfingídeos, embora abelhas e outros insetos diurnos visitem as flores recém-abertas em busca de pólen. A dispersão natural é atribuída a aves frugívoras, coerente com o fruto carnoso, colorido e persistente no ramo durante o inverno, ainda que os registros de campo sejam escassos para uma planta que há muito se multiplica sobretudo pelas mãos de horticultores. As formas dobradas de cultivo, com estames convertidos em pétalas, são em grande parte estéreis e raramente produzem fruto.

Espécies Relacionadas e Confusões

Dentro do gênero, três espécies aparecem com frequência ao lado do jasmim-do-cabo em coleções e viveiros. Gardenia thunbergia Thunb., da África do Sul, distingue-se de imediato pelo porte arbóreo, que pode alcançar cinco metros, pelo tubo floral bem mais longo e estreito e pelo fruto lenhoso e duro, que persiste anos na planta. Gardenia taitensis DC., a tiaré do Pacífico Sul e flor emblemática do Taiti, tem folhas maiores e mais membranáceas e corola de lobos largos e planos, sempre simples. Gardenia volkensii K.Schum., das savanas africanas, apresenta hábito ramificado e retorcido e frutos de casca rígida, e nunca é confundida com a espécie asiática por quem já viu as duas lado a lado.

Fora do gênero, as confusões são mais frequentes e mais consequentes:

  • Camellia japonica L. (Theaceae): as cultivares brancas de flor dobrada lembram uma gardênia de longe, mas a camélia não tem perfume perceptível, as folhas têm margem serrilhada e o ovário é súpero
  • Jasminum sambac (L.) Aiton (Oleaceae): flores brancas igualmente perfumadas, porém dispostas em cimeiras e não solitárias, folhas finas e não coriáceas, e hábito trepador ou escandente
  • Tabernaemontana divaricata (L.) R.Br. ex Roem. & Schult. (Apocynaceae): a variedade de flores dobradas é a sósia mais enganosa em jardins brasileiros, onde recebe os nomes de jasmim-café e jasmim-leiteiro

A distinção decisiva em relação à Tabernaemontana é simples e imediata: qualquer ramo ou folha rompida verte látex branco e leitoso, ausente por completo nas Rubiaceae. Esse látex, característico das Apocynaceae, contém alcaloides e irrita pele e mucosas, motivo pelo qual a diferenciação não é mera curiosidade de identificação. As pétalas da Tabernaemontana também são levemente torcidas, com aspecto de cata-vento, enquanto as da gardênia se sobrepõem em espiral regular.

Fitoquímica

O perfil químico de Gardenia jasminoides é dominado por dois grupos de compostos concentrados no fruto: os iridoides glicosídicos e os carotenoides hidrossolúveis. Entre os iridoides, o geniposídeo é o majoritário, acompanhado de gardenosídeo, ácido geniposídico e shanzisídeo, além da genipina, aglicona liberada pela hidrólise do geniposídeo. Entre os carotenoides, a crocina e sua aglicona crocetina respondem pelo amarelo-alaranjado intenso da polpa, e são exatamente os mesmos pigmentos que dão cor ao açafrão verdadeiro, obtido dos estigmas de Crocus sativus, planta de família inteiramente distinta.

A distribuição desses compostos na planta é desigual. Os iridoides e os carotenoides acumulam-se sobretudo no pericarpo e na polpa do fruto maduro, com teores muito menores em folhas e ramos. As folhas concentram triterpenos, entre eles o ácido ursólico, além de flavonoides e ácidos clorogênicos. As flores, por sua vez, não contribuem para o quadro pigmentar e respondem por um capítulo à parte: o óleo essencial floral reúne acetato de benzila, álcool benzílico, cis-jasmona, linalol e alfa-terpineol, combinação responsável pela assinatura olfativa que a perfumaria tenta reproduzir desde o século XIX, já que a extração direta em escala industrial nunca se mostrou viável.

A genipina tem uma propriedade química notável e bem documentada: em contato com aminoácidos primários e proteínas, reage formando pigmentos azuis estáveis. É essa reação, e não qualquer pigmento pré-existente, que está por trás do corante conhecido como azul de gardênia, usado na indústria alimentícia asiática. Do mesmo fruto, portanto, saem um amarelo direto e um azul obtido por reação, o que faz da espécie uma fonte industrial de corantes naturais bastante versátil.

Quanto à segurança animal, o registro é objetivo e pertence ao presente: a espécie consta das listas de plantas tóxicas para cães, gatos e cavalos mantidas pelo centro de controle de intoxicações animais da ASPCA, que aponta geniposídeo e gardenosídeo como princípios responsáveis, com quadro descrito de vômito leve, diarreia e urticária após ingestão.

História e Etnobotânica do Jasmim-do-Cabo

A trajetória documental da espécie começa na Ásia Oriental muito antes de qualquer registro europeu. Os frutos secos aparecem sob o nome zhi zi (栀子) em compilações chinesas de matéria médica desde pelo menos o século I, com menção no Shennong Bencao Jing, e permaneceram catalogados nas farmacopeias imperiais ao longo dos dois milênios seguintes. Em paralelo, e com documentação igualmente antiga, o fruto foi empregado como fonte de corante amarelo por tintureiros chineses, que o usavam para tingir tecidos de seda e algodão.

No Japão, onde a planta é chamada de kuchinashi, o mesmo fruto entrou na cozinha e permanece nela. A polpa serve para colorir preparações tradicionais como o kuri kinton, doce de castanha do ano-novo, e o takuan, conserva de nabo, além de arroz e massas. O uso alimentar sobreviveu à industrialização e hoje sustenta plantios comerciais na China e no Japão voltados à extração de pigmento para a indústria de alimentos e cosméticos.

A chegada da espécie à Europa ocorreu por volta da primeira metade do século XVIII, pelas rotas das companhias de comércio holandesas e inglesas que operavam entre a Ásia e o Atlântico com escala no Cabo da Boa Esperança. Foi a partir de um exemplar cultivado na Inglaterra que John Ellis dissecou a flor, percebeu que a planta não tinha parentesco com os jasmins verdadeiros e propôs, em 1761, o gênero que hoje leva o nome de Alexander Garden. Nas décadas seguintes a gardênia tornou-se símbolo de status na horticultura de estufa europeia, e no século XIX atravessou o Atlântico para se estabelecer nos jardins do sul dos Estados Unidos, onde foi cultivada em larga escala nas propriedades da Carolina do Sul, da Geórgia e da Louisiana.

Já no século XX, a flor ganhou uma segunda vida cultural como adorno pessoal. Serviu de flor de lapela padrão dos trajes formais masculinos até a década de 1950 e ficou associada de forma indelével à cantora Billie Holiday, que a usava presa ao cabelo em suas apresentações, ao ponto de a gardênia virar parte de sua identidade visual pública.

Conservação

A espécie não possui avaliação global publicada na Lista Vermelha da IUCN, e a consulta ao banco de dados não retorna ficha para o binômio, situação que a coloca formalmente na condição de Não Avaliada (NE). Também não consta de nenhum apêndice da CITES, de modo que não há restrição internacional ao comércio de exemplares, sementes ou frutos.

A ausência de avaliação não indica, por si só, situação preocupante. A espécie tem distribuição nativa ampla, ocorre em vários países asiáticos e é cultivada em escala industrial na China, no Japão e na Coreia para produção de pigmento, além de ser uma das plantas ornamentais mais multiplicadas do mundo em viveiros comerciais. Essa combinação torna sua persistência praticamente independente do destino das populações silvestres, que enfrentam as pressões usuais de conversão de habitat no sul da China. A conservação ex situ é robusta e passiva: coleções de jardins botânicos, bancos de germoplasma de instituições agronômicas asiáticas e a própria escala do cultivo ornamental cumprem o papel.

O contraste com outras espécies do gênero, contudo, é severo. Várias Gardenia insulares têm distribuição naturalmente diminuta e situação crítica, com destaque para Gardenia brighamii H.Mann, endêmica do Havaí e reduzida a poucas dezenas de indivíduos silvestres, dependente de plantio de reforço e proteção contra herbívoros introduzidos. A folga confortável do jasmim-do-cabo, portanto, não se estende ao gênero que ele representa no imaginário popular.

Curiosidades

  • O nome japonês kuchinashi significa literalmente sem boca, alusão ao fruto que amadurece sem se abrir, ao contrário das cápsulas deiscentes que liberam sementes por fendas.
  • O sinônimo Jasminum capense Mill., de 1768, e o nome popular inglês cape jasmine registram a rota comercial, e não a origem: as primeiras plantas chegaram à Europa em navios que faziam escala no Cabo da Boa Esperança, e por muito tempo se acreditou que a espécie fosse africana.
  • A crocina do fruto da gardênia é o mesmo pigmento dos estigmas do açafrão, o que faz do fruto uma fonte industrial muito mais barata da mesma molécula corante, ainda que sem o aroma característico da especiaria.
  • O perfume de gardênia vendido em perfumaria é quase sempre uma reconstrução sintética. A flor não rende óleo essencial em quantidade economicamente viável, e a indústria trabalha com acordes montados a partir de acetato de benzila, linalol e outras moléculas identificadas na análise do aroma natural.
  • Ellis quase batizou o gênero de Warneria, em homenagem ao dono da planta que estudou. A recusa do homenageado deu ao mundo o nome que ficou, tirado de um naturalista escocês que vivia do outro lado do Atlântico e provavelmente nunca viu a espécie viva.

Aviso: este conteúdo é informativo e não substitui orientação de profissional de saúde. Consulte um médico ou fitoterapeuta antes de usar plantas medicinais, especialmente na gravidez, na lactação ou em uso de medicamentos.

Referências e Estudos Científicos

9 Referências Citadas

Baseado em 9 Referências Citadas (9 Complementares).

Ver Todas as 9 Referências Citadas
  1. ASPCA Animal Poison Control Center. Toxic and Non-Toxic Plant List: Gardenia jasminoides. American Society for the Prevention of Cruelty to Animals. Disponível em ↗
  2. Ellis, J. An account of the plants Halesia and Gardenia. Philosophical Transactions of the Royal Society of London, 51(2): 929-935, 1761.
  3. 1993 Iwatsuki, K., Yamazaki, T., Boufford, D. E. & Ohba, H. (eds.). Flora of Japan IIIa: 1-482. Kodansha, Tóquio, 1993.
  4. POWO. Gardenia jasminoides J.Ellis. Plants of the World Online, Royal Botanic Gardens, Kew. Disponível em ↗
  5. The International Plant Names Index. Gardenia jasminoides J.Ellis, registro 751073-1. Disponível em ↗
  6. 2026 The IUCN Red List of Threatened Species. Consulta ao nome Gardenia jasminoides, sem ficha de avaliação global publicada até agosto de 2026. Disponível em https://www.iucnredlist.org/search?query=Gardenia jasminoides
  7. Thunberg, C. P. Gardenia: 1-19. Dissertação apresentada na Universidade de Uppsala, 1780.
  8. 2011 Wu, Z., Raven, P. H. & Hong, D. (eds.). Flora of China, vol. 19: Rubiaceae, 1-884. Science Press, Pequim, e Missouri Botanical Garden Press, St. Louis, 2011.
  9. 2017 Xiao, W., Li, S., Wang, S. & Ho, C. T. Chemistry of Gardenia jasminoides Ellis. Journal of Food and Drug Analysis, 25(1): 43-61, 2017.
Este artigo foi esclarecedor?
O que você achou deste artigo?
Nota média: -