Petroselinum crispum (Salsa): Perfil Botânico Completo

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A Petroselinum crispum é, ao mesmo tempo, a erva mais banal das cozinhas ocidentais e uma das apiáceas de história nomenclatural mais embaraçada. Trata-se de uma herbácea bienal da família Apiaceae, com folhas profundamente recortadas, raiz pivotante engrossada e um aroma inconfundível que se libera assim que qualquer parte da planta é amassada. No Brasil ela circula sob os nomes de salsa, salsinha e cheiro-verde, este último designando na verdade a mistura com a cebolinha que acompanha quase todo prato salgado da cozinha popular.

A família Apiaceae, também chamada de Umbelliferae, reúne cerca de 3.800 espécies distribuídas por todos os continentes habitados, e a salsa está entre as poucas que atravessaram a fronteira do cultivo doméstico para a escala agrícola industrial. O gênero Petroselinum é minúsculo. Nos tratamentos taxonômicos mais recentes ele abriga uma única espécie aceita, justamente esta, depois que a antiga salsa-dos-campos foi devolvida ao gênero Sison.

O que torna a espécie notável do ponto de vista botânico não é o uso culinário, e sim a combinação de três características raras: um óleo fixo dominado por um ácido graxo pouco frequente na natureza, uma germinação notoriamente lenta governada por inibidores no pericarpo, e um conjunto de furanocumarinas fototóxicas que a aproxima quimicamente de parentes bem mais perigosos da mesma família. Este perfil descreve a planta em si, sua morfologia, distribuição, cultivo e química, sem tratar de aplicações em saúde.
No Brasil, a salsa também atende pelos nomes de salsinha e cheiro-verde, este último designando a mistura com a cebolinha.

Taxonomia

O nome aceito é Petroselinum crispum (Mill.) Fuss, publicado por Johann Michael Fuss na Flora Transsilvaniae, página 254, em 1866. O basiônimo é Apium crispum Mill., descrito por Philip Miller na oitava edição do Gardeners Dictionary, entrada número 2, de 16 de abril de 1768. A confusão que circula em fontes secundárias, atribuindo o basiônimo a Linnaeus, não se sustenta: o nome linneano Apium petroselinum L., da Species Plantarum de 1753, é anterior, mas não é a base da combinação que hoje vigora.

A classificação completa segue abaixo.

  • Reino: Plantae
  • Divisão: Tracheophyta (angiospermas)
  • Classe: Magnoliopsida (eudicotiledôneas)
  • Ordem: Apiales
  • Família: Apiaceae (Umbelliferae)
  • Subfamília: Apioideae
  • Tribo: Apieae
  • Gênero: Petroselinum Hill, 1756
  • Espécie: Petroselinum crispum (Mill.) Fuss, 1866

Três combinações homônimas circulam na literatura, atribuídas a Fuss (1866), a Nyman (1882) e a A. W. Hill (1925). A primeira tem prioridade e é a citada pelo Plants of the World Online. Encontrar a autoria grafada como “(Mill.) Nyman ex A. W. Hill” em artigos de química de alimentos é comum e reflete apenas essa herança bibliográfica, não uma entidade botânica distinta.

Sinônimos

Entre os sinônimos homotípicos e heterotípicos reconhecidos estão, em ordem alfabética:

  • Apium crispum Mill. (basiônimo)
  • Apium petroselinum L.
  • Carum petroselinum (L.) Benth. & Hook.f.
  • Carum petroselinum var. crispum (Mill.) Beck
  • Petroselinum hortense Hoffm.
  • Petroselinum sativum Hoffm.
  • Petroselinum sativum var. crispum (Mill.) Gaudin
  • Petroselinum vulgare Lag.

Grupos de Cultivares

A variação hortícola acumulada em dois milênios de seleção produziu uma nomenclatura infraespecífica generosa, com dezenas de variedades e formas descritas por Danert em 1959 e revisadas por Reduron em 2008. Na prática agronômica, três grupos concentram tudo o que se cultiva.

  • Grupo da salsa-crespa (var. crispum): folhas fortemente encaracoladas, roseta compacta, aroma mais discreto. Predomina no norte da Europa e nos Estados Unidos.
  • Grupo da salsa-lisa (var. neapolitanum Danert): folíolos planos e largos, porte mais alto, aroma mais penetrante. É o grupo dominante no Brasil e em toda a bacia do Mediterrâneo.
  • Grupo da salsa-de-raiz (var. tuberosum, também tratada como subsp. tuberosum): raiz principal engrossada e fusiforme, branca, semelhante a uma cenoura pálida. Cultivada sobretudo na Europa central e oriental.

Etimologia

O nome genérico vem do grego petros, pedra, somado a selinon, o nome antigo do aipo, e descreve algo como “aipo das pedras”, alusão aos afloramentos rochosos e muros onde as populações espontâneas costumam se instalar. O epíteto crispum é o adjetivo latino para crespo ou encarapinhado, tomado das folhas onduladas das formas hortícolas que Miller tinha diante de si em 1768. A forma portuguesa “salsa” descende do latim salsus, salgado, e chegou ao idioma por via popular, associada ao tempero.

Descrição Morfológica da Salsa

Planta herbácea bienal, glabra, aromática em todas as partes, com 30 a 80 centímetros de altura na fase vegetativa. No primeiro ciclo produz apenas uma roseta basal densa sustentada por uma raiz pivotante. No segundo, alonga uma haste floral ereta, cilíndrica, estriada e ramificada no ápice, que pode ultrapassar um metro, floresce, frutifica e morre. Sob cultivo comercial a planta quase nunca chega a esse segundo ciclo, porque é arrancada ou substituída antes.

Folhas

As folhas são alternas e compostas, com 10 a 25 centímetros de comprimento total incluindo o pecíolo, de coloração verde-escura intensa e superfície brilhante. A lâmina é duas a três vezes pinatissecta, com segmentos cuneiformes a ovados de margem serreada nas formas de folha plana, e fortemente ondulados e sobrepostos nas formas crespas. O pecíolo mede de 5 a 15 centímetros, é canaliculado na face superior e alarga-se numa bainha membranácea curta junto à base. As folhas caulinares que surgem no segundo ano são progressivamente menores e menos divididas, chegando a segmentos quase lineares perto da inflorescência.

Folha de salsa-lisa vista de cima, com a lâmina duas vezes pinatissecta e os segmentos cuneiformes de margem serreada que distinguem o grupo var. neapolitanum das formas crespas.

Folha de salsa-lisa vista de cima, com a lâmina duas vezes pinatissecta e os segmentos cuneiformes de margem serreada que distinguem o grupo var. neapolitanum das formas crespas.

Flores

A inflorescência é uma umbela composta de 3 a 8 centímetros de diâmetro, com 8 a 20 raios desiguais. O involucro apresenta uma a três brácteas lineares, às vezes bífidas, e os involucelos das umbélulas reúnem várias bractéolas estreitas. As flores individuais são diminutas, com cinco pétalas amarelo-esverdeadas de ápice incurvado, cinco estames e ovário ínfero bicarpelar encimado por um estilopódio achatado. A coloração esverdeada é um caráter útil de campo, já que boa parte das apiáceas confundíveis floresce em branco.

Frutos e Sementes

O fruto é um esquizocarpo que se parte em dois mericarpos, o diaquênio característico da família. Mede 2,5 a 3 milímetros, tem forma ovoide levemente comprimida lateralmente e adquire tom marrom-acinzentado na maturação. Cada mericarpo exibe cinco costelas primárias filiformes e pouco salientes, com canais secretores entre elas. O que o comércio vende como semente de salsa é o mericarpo inteiro, fruto e tudo, e é justamente o pericarpo que abriga os inibidores responsáveis pela germinação lenta e desuniforme.

Raiz e Caule

A raiz é pivotante, esbranquiçada a creme, aromática, e desce de 20 a 40 centímetros nos grupos de folha. No grupo de raiz o órgão engrossa consideravelmente, chegando a 5 centímetros de diâmetro e 25 centímetros de comprimento, com córtex espesso e cilindro central fibroso. O caule só se desenvolve no segundo ciclo, é oco entre os nós, estriado longitudinalmente e desprovido de qualquer mancha ou pigmentação, detalhe que ganha importância na hora de separar a salsa de sósias tóxicos.

Distribuição e Habitat

O Plants of the World Online circunscreve a área nativa da espécie ao noroeste da África e à Península Balcânica. Parte da literatura hortícola mais antiga estende essa origem a todo o Mediterrâneo oriental, incluindo a Anatólia e o Levante, mas a evidência de populações genuinamente espontâneas fora do Magrebe e dos Bálcãs é fraca e provavelmente reflete escapes antigos de cultivo. A subespécie giganteum, descrita para o Marrocos, ancora a metade africana dessa distribuição.

Como planta cultivada a espécie está presente em todos os continentes habitados, e escapou para o estado subespontâneo ou naturalizado numa lista longa de territórios, entre eles a Argentina, a Austrália, o Brasil, o Chile, o Canadá, os Estados Unidos, a Nova Zelândia e boa parte da Europa central e ocidental. Também consta como introduzida em ilhas oceânicas, incluindo o arquipélago de Galápagos. Nenhuma dessas populações é considerada invasora agressiva: a salsa persiste em terrenos perturbados, bordas de horta e entulhos, sem deslocar vegetação nativa estabelecida.

O habitat típico das populações espontâneas são encostas rochosas, fendas de muros antigos, taludes e solos calcários bem drenados, do nível do mar até cerca de 2.000 metros de altitude. A espécie prefere climas temperados e subtropicais, com temperaturas entre 12 e 22 graus Celsius, tolera geadas leves de até 5 graus negativos e sofre acima de 30 graus, quando entra em pendoamento precoce e amarelece. O solo ideal é profundo, fértil, rico em matéria orgânica e de pH entre 5,5 e 7,5, com boa drenagem e textura franco-arenosa.

Touceiras espontâneas de Petroselinum crispum entre gramíneas e restos vegetais, situação típica dos terrenos perturbados onde a espécie persiste depois de escapar do cultivo.

Touceiras espontâneas de Petroselinum crispum entre gramíneas e restos vegetais, situação típica dos terrenos perturbados onde a espécie persiste depois de escapar do cultivo.

Cultivo

A propagação é feita exclusivamente por semente, ou mais rigorosamente pelo fruto seco inteiro. Não há multiplicação vegetativa praticável, já que a planta não emite estolões nem tolera divisão de touceira sem perder a raiz pivotante. A germinação leva de duas a cinco semanas e é conhecida por sua irregularidade, consequência direta dos inibidores presentes no pericarpo, que precisam ser lixiviados pela água do solo antes que o embrião reaja. Substrato mantido úmido e temperatura estável na faixa de 20 a 25 graus Celsius encurtam bastante essa espera. As sementes perdem viabilidade depressa, e lotes com mais de dois anos costumam apresentar queda acentuada de emergência.

Na semeadura direta, os frutos são distribuídos a cerca de meio centímetro de profundidade, em linhas espaçadas de 20 a 30 centímetros, com desbaste posterior para 5 a 10 centímetros entre plantas. A cultura responde bem a matéria orgânica incorporada antes do plantio e a coberturas nitrogenadas periódicas durante o período de colheita. A irrigação precisa ser regular, porque o déficit hídrico se traduz rapidamente em folhas amareladas e perda de qualidade comercial. A rotação com espécies de outras famílias é recomendada, já que o plantio sucessivo de apiáceas no mesmo canteiro acumula patógenos de solo.

Canteiro de salsa-lisa em plena fase vegetativa, com as rosetas basais fechadas umas sobre as outras pouco antes do primeiro corte das folhas externas.

Canteiro de salsa-lisa em plena fase vegetativa, com as rosetas basais fechadas umas sobre as outras pouco antes do primeiro corte das folhas externas.

Entre as pragas mais frequentes estão, em ordem alfabética, o pulgão Dysaphis apiifolia, específico de apiáceas, que coloniza pecíolos e face inferior das folhas; a lagarta de Papilio polyxenes, listrada de verde, preto e amarelo, que consome folhagem em jardins americanos; a mosca Psila rosae, cujas larvas minam raízes e atingem sobretudo o grupo de raiz engrossada; e nematoides do gênero Meloidogyne, que induzem galhas radiculares e reduzem o vigor da planta. No campo das doenças, destacam-se Alternaria radicina, causadora de podridão negra da raiz; Cercospora petroselini, responsável por manchas foliares castanhas; Erysiphe heraclei, o oídio das umbelíferas; e Septoria petroselini, agente da septoriose, de longe a doença foliar mais destrutiva da cultura, reconhecível pelas lesões necróticas salpicadas de picnídios escuros.

A colheita foliar começa entre 60 e 80 dias após a semeadura e prossegue por cortes sucessivos, quatro a seis por ciclo, sempre retirando as folhas externas e preservando o meristema central para a rebrota. As raízes do grupo tuberoso são arrancadas entre 90 e 120 dias. Em clima tropical o ciclo produtivo encurta, e o pendoamento pode aparecer já aos três ou quatro meses, momento em que a folhagem perde qualidade e a lavoura é renovada.

Fenologia

A floração ocorre no segundo ano de vida, entre junho e agosto no hemisfério norte, e de forma mais errática nas latitudes tropicais, onde o estresse térmico pode antecipar o pendoamento para o primeiro ciclo. A indução floral depende de vernalização, ou seja, de um período de frio que a planta precisa acumular antes de alongar a haste. É por isso que a salsa se comporta como anual em regiões quentes e como bienal estrita em climas temperados.

As umbelas são protândricas, característica geral da família: as anteras liberam pólen antes que os estigmas da mesma flor se tornem receptivos, o que favorece a polinização cruzada. A visitação é predominantemente entomófila e generalista, com dípteros, pequenos himenópteros e vespas respondendo pela maior parte das visitas, atraídos pelo néctar exposto do estilopódio. A frutificação sucede entre agosto e setembro no hemisfério norte, cerca de seis a oito semanas após a antese.

A dispersão é essencialmente barocórica. Os mericarpos não possuem alas, ganchos ou apêndices plumosos, e caem por gravidade a curta distância da planta-mãe, podendo ser deslocados depois pela enxurrada ou pelo revolvimento do solo. Na prática, a dispersão de longa distância da espécie é inteiramente antrópica, movida pelo comércio de sementes e pelo descarte de restos de horta, o que explica o padrão de ocorrência da planta em terrenos baldios e proximidades de áreas cultivadas.

Espécies Relacionadas e Confusões

Com a transferência da salsa-dos-campos de volta para Sison, o gênero Petroselinum passou a ser tratado como monoespecífico nos catálogos de referência atuais, embora floras europeias mais antigas ainda listem duas espécies. Os riscos reais de confusão vêm, portanto, de fora do gênero. Abaixo, em ordem alfabética, as espécies mais frequentemente trocadas pela salsa e os caracteres que resolvem cada caso.

  • Aethusa cynapium L. (cicuta-menor): semelhança superficial forte com a salsa de folha lisa. A planta contém poliínas tóxicas do grupo da aethusina, e a ingestão causa envenenamento grave. Separa-se pelas bractéolas longas e pendentes sob as umbélulas, pelas flores brancas em vez de esverdeadas e pelo odor desagradável do tecido esmagado.
  • Anthriscus cerefolium (L.) Hoffm. (cerefólio): parente culinário de folhas mais finas e recorte mais delicado, flores brancas e aroma anisado nítido, distinto do cheiro herbáceo da salsa.
  • Apium graveolens L. (aipo): folhagem comparável, mas com pecíolos muito engrossados, suculentos e sulcados, folíolos maiores e menos divididos, além de aroma próprio inconfundível.
  • Conium maculatum L. (cicuta-maior): a confusão mais perigosa de todas. A planta contém coniina e alcaloides piperidínicos relacionados, e a ingestão de pequenas quantidades é letal para pessoas e animais. Distingue-se pelo porte muito maior, que passa dos dois metros, pelo caule glabro com manchas purpúreas características, pelas flores brancas e pelo odor fétido, comparado ao de urina de camundongo.
  • Coriandrum sativum L. (coentro): a troca mais comum nas feiras brasileiras. O coentro tem folhas basais de lobos largos e arredondados, não pinatissectas, aroma aldeídico marcante, flores brancas a rosadas e frutos globosos, contra os frutos ovoides da salsa.
  • Sison segetum L. (antiga Petroselinum segetum): espécie silvestre da Europa atlântica, com folhas de recorte mais grosseiro, segmentos menos numerosos e porte mais frágil.

A regra prática de campo combina três observações: cor das flores, presença de manchas no caule e odor. Umbelas esverdeadas, caule limpo e cheiro fresco e herbáceo apontam para a salsa. Flores brancas, caule manchado ou odor desagradável exigem parar a identificação e recorrer a chave botânica ou a um especialista.

Fitoquímica

A composição química da espécie é uma das mais documentadas entre as apiáceas cultivadas, e varia de forma acentuada entre grupos de cultivares e entre órgãos da planta. Esta seção descreve o que a planta acumula e onde, sem tratar de efeitos em pessoas.

O óleo essencial representa de 0,1 a 0,3 por cento da massa das folhas frescas e de 2 a 7 por cento dos frutos. Sua fração dominante é composta por fenilpropanoides, e a proporção entre eles define quimiotipos bastante distintos: o apiol predomina nos frutos de boa parte das linhagens de folha lisa, enquanto a miristicina prevalece em muitas linhagens de folha crespa, ambos podendo responder por 30 a 60 por cento do óleo dos frutos. A fração monoterpênica reúne alfa-pineno, beta-pineno, limoneno e mirceno, e o composto 1,3,8-p-mentatrieno responde por boa parte do cheiro verde característico da folhagem recém-cortada.

Entre os flavonoides, as flavonas apigenina e luteolina aparecem majoritariamente na forma glicosilada, com destaque para a apiína, ou apigenina-7-apiosilglicosídeo, e para a cosmosiína, ou apigenina-7-O-glicosídeo. As folhas concentram esses compostos em teores altos para uma hortaliça folhosa.

As furanocumarinas formam o grupo quimicamente mais sensível da espécie e incluem bergapteno, isopimpinelina, oxipeucedanina e psoraleno, distribuídas por folhas, pecíolos e frutos. Essas moléculas são fototóxicas. O contato prolongado da pele com a seiva, seguido de exposição solar, provoca fitofotodermatite, uma reação de queimadura com eritema e bolhas que atinge sobretudo trabalhadores que manipulam grandes volumes da planta durante a colheita. O óleo essencial concentrado dos frutos, rico em apiol e miristicina, é tóxico e não se confunde com a folha fresca usada como tempero.

O óleo fixo das sementes tem uma peculiaridade que interessa à indústria: de 60 a 75 por cento de sua composição é ácido petroselínico, um ácido graxo monoinsaturado de dezoito carbonos com a insaturação na posição 6, arranjo raro entre os óleos vegetais e praticamente restrito às apiáceas e às araliáceas. As folhas ainda acumulam carotenoides, com beta-caroteno e luteína em destaque, além de teores elevados de ácido ascórbico e de filoquinona, esta última entre as mais altas registradas em folhas comestíveis.

Convém registrar um ponto de segurança animal: a Sociedade Americana para a Prevenção da Crueldade contra os Animais classifica a espécie como tóxica para cães, gatos e cavalos, atribuindo o efeito justamente às furanocumarinas e à fotossensibilização que elas provocam quando o animal consome quantidades expressivas da planta.

História e Etnobotânica

Os gregos antigos associavam a planta à morte e ao luto, não à mesa. Coroas trançadas com a erva ornamentavam túmulos e cortejos fúnebres, e a expressão proverbial que traduzimos como “estar precisando de salsa” designava quem se encontrava à beira do fim. Vale uma ressalva de leitura das fontes clássicas: o termo grego selinon cobria tanto a salsa quanto o aipo, de modo que a identificação botânica das coroas de vitória dos Jogos Nemeus permanece disputada entre helenistas e não pode ser atribuída a esta espécie com segurança.

Foram os romanos que deslocaram a espécie para a cozinha. Os tratados agrícolas latinos registram a planta cultivada em horta doméstica e empregada como condimento, hábito que se difundiu com a expansão do império pelo continente europeu. Na Idade Média, a salsa aparece entre as espécies que Carlos Magno mandou plantar nos domínios reais pelo Capitulare de Villis, documento de cerca de 795, e monastérios europeus a mantiveram em cultivo contínuo ao longo de todo o período.

A lentidão da germinação alimentou um folclore próprio. Na Inglaterra rural corria a crença de que as sementes precisavam descer sete vezes ao diabo e voltar antes de brotar, e em várias regiões da Europa transplantar salsa era tido como presságio ruim, superstição que sobreviveu em manuais de jardinagem até o século XIX.

Linnaeus formalizou a espécie como Apium petroselinum na Species Plantarum de 1753. Miller a redescreveu como Apium crispum em 1768, Hoffmann propôs a separação genérica em 1814, e Fuss consolidou a combinação atual em 1866, encerrando um vaivém nomenclatural de mais de um século. No Brasil, colonizadores portugueses trouxeram a planta no século XVI, e ela se incorporou de forma tão completa à cozinha popular que a dupla formada com a cebolinha ganhou nome próprio, cheiro-verde, e presença permanente em feiras de todo o país.

Conservação

A espécie não possui avaliação publicada na Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza, e seu status é, portanto, Não Avaliada. Também não figura em nenhum dos apêndices da CITES. A situação é a esperada para uma planta de distribuição cultivada global, com populações imensas e nenhuma dependência de habitat natural para persistir.

As preocupações reais de conservação são de outra ordem e recaem sobre a diversidade genética. A substituição de variedades locais por um punhado de cultivares comerciais uniformes vem estreitando a base genética da cultura, processo bem documentado em hortaliças de ciclo curto. Coleções de germoplasma mantidas pelo IPK de Gatersleben, na Alemanha, pelo Centre for Genetic Resources dos Países Baixos e pelo sistema nacional de germoplasma dos Estados Unidos preservam centenas de acessos, incluindo materiais silvestres e variedades tradicionais fora de circulação comercial.

Nas populações espontâneas do Mediterrâneo e do Magrebe, a pressão vem da intensificação agrícola e da perda de habitats rupícolas e de bordas de cultivo. O quadro é semelhante ao de outros parentes silvestres de plantas cultivadas, um grupo que ganhou atenção crescente em estratégias de conservação justamente por guardar variabilidade útil que os cultivares modernos já perderam.

Curiosidades

  • O ácido petroselínico, dominante no óleo das sementes, é uma matéria-prima industrial incomum: a clivagem oxidativa de sua dupla ligação na posição 6 gera ácido láurico e ácido adípico, dois insumos de grande escala, o primeiro para tensoativos e o segundo para a fabricação de náilon.
  • A lagarta de Papilio polyxenes, borboleta rabo-de-andorinha-preta das Américas, usa a salsa como planta hospedeira preferencial e ganhou nos Estados Unidos o apelido de “parsley worm”. Muitos jardineiros toleram o dano à folhagem em troca das borboletas adultas.
  • O que se compra como semente de salsa não é semente: é o mericarpo inteiro, fruto seco com pericarpo e tudo, e é esse pericarpo que carrega os inibidores químicos responsáveis pelas semanas de espera até a emergência.
  • O grupo de raiz engrossada é praticamente desconhecido no Brasil, mas ocupa nas cozinhas da Polônia, da Alemanha e da Hungria um papel comparável ao da cenoura, entrando em caldos e sopas como raiz e não como erva.
  • A palavra inglesa “parsley” descende do mesmo petroselinum latino, por um caminho tortuoso que passou pelo francês antigo peresil e pelo inglês médio persely, fundindo pelo caminho uma forma herdada do inglês antigo com o empréstimo normando.

Aviso: este conteúdo é informativo e não substitui orientação de profissional de saúde. Consulte um médico ou fitoterapeuta antes de usar plantas medicinais, especialmente na gravidez, na lactação ou em uso de medicamentos.

Referências e Estudos Científicos

11 Referências Citadas

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  1. American Society for the Prevention of Cruelty to Animals. Toxic and Non-Toxic Plants: Parsley (Petroselinum crispum). ASPCA Animal Poison Control Center. Disponível em: aspca.org.
  2. 1959 Danert, S. Zur Systematik der Petersilie. Die Kulturpflanze, Beiheft 2, p. 320-326. 1959.
  3. Fuss, J. M. Flora Transsilvaniae Excursoria. Cibinii, p. 254. 1866.
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  7. Miller, P. The Gardeners Dictionary, oitava edição, entrada Apium n. 2. Londres. 1768.
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  9. 2008 Reduron, J.-P. Ombellifères de France, tomo 4. Bulletin de la Société Botanique du Centre-Ouest, número especial 29. 2008.
  10. 1988 Simon, J. E.; Quinn, J. Characterization of Essential Oil of Parsley. Journal of Agricultural and Food Chemistry, v. 36, n. 3, p. 467-472. 1988.
  11. 1968 Tutin, T. G. et al. (eds.). Flora Europaea, volume 2: Rosaceae to Umbelliferae. Cambridge University Press. 1968.
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