Glycyrrhiza glabra L. / Alcaçuz, conhecida popularmente como alcaçuz em Portugal e no Brasil, é uma planta herbácea perene da família Fabaceae, descrita por Carl Linnaeus. Originária da Europa e de partes da Ásia, esta espécie disseminou-se por diversas regiões devido às suas reconhecidas propriedades terapêuticas e ao seu uso como adoçante natural. O alcaçuz é utilizado há milênios na medicina tradicional, sendo valorizado por sua raiz doce e por suas aplicações em diversas culturas, e suas raízes, ricas em glicirrizina, são colhidas para a preparação de infusões, extratos e outros produtos fitoterápicos.

Na tradição herbária europeia e asiática, o alcaçuz ocupa um lugar de destaque como planta associada a propriedades anti-inflamatórias e expectorantes, com aplicações que vão do alívio de distúrbios respiratórios ao apoio em problemas gastrointestinais. A planta é reconhecida por sua composição fitoquímica rica, especialmente em glicirrizina e flavonoides, aos quais se atribuem suas propriedades tradicionais, e a pesquisa científica moderna tem investigado muitos dos usos tradicionais do alcaçuz, consolidando sua posição como uma das plantas medicinais mais estudadas e utilizadas em todo o mundo.
Nomes Populares e Internacionais do Alcaçuz
- Português: alcaçuz, regaliz (BR).
- Inglês: licorice, liquorice, sweet root.
- Espanhol: palodulce, regaliz.
- Francês: bois doux, réglisse.
- Italiano: liquirizia.
- Alemão: Süßholz.
Sinônimos Botânicos do Alcaçuz
Glycyrrhiza glabra L. possui alguns sinônimos botânicos menos comuns, mas que podem ser encontrados em diversas literaturas, entre eles Glycyrrhiza glandulifera Waldst. & Kit., Glycyrrhiza hirsuta Pall. e Liquiritia officinalis Mönch. Essas denominações refletem variações taxonômicas históricas e regionais, embora Glycyrrhiza glabra seja o nome aceito pela maioria das autoridades botânicas e amplamente utilizado em publicações científicas e farmacológicas.
Família Botânica: Fabaceae
A família Fabaceae, também conhecida como Leguminosae, é uma das maiores famílias de plantas com flores, compreendendo cerca de 765 gêneros e mais de 19.500 espécies distribuídas por todo o mundo, caracterizada pela presença de frutos em vagem e pela capacidade de muitas de suas espécies de fixar nitrogênio atmosférico através de simbiose com bactérias. As Fabaceae incluem plantas de grande importância econômica, alimentar e medicinal, tais como feijão, ervilha, soja e amendoim.
O alcaçuz partilha características morfológicas típicas da família, incluindo folhas pinadas e flores com estrutura papilionácea, e a família Fabaceae é conhecida pela produção de compostos bioativos, especialmente flavonoides, saponinas e alcaloides, que conferem propriedades medicinais a muitas de suas espécies. A diversidade química desta família tem sido objeto de intensa pesquisa farmacológica, contribuindo para o desenvolvimento de fitofármacos e suplementos alimentares.
Partes Utilizadas do Alcaçuz
- Raiz
- Rizoma
Usos Etnobotânicos e Tradicionais do Alcaçuz
- Adoçante natural
- Alívio de problemas gastrointestinais (azia, indigestão, úlceras)
- Anti-inflamatório
- Expectorante (ajuda a eliminar o excesso de muco)
- Tratamento de distúrbios respiratórios (tosse, bronquite)
- Tratamento de hiperdipsia (sede excessiva)
- Uso em Ayurveda para equilibrar doshas
- Uso em Medicina Tradicional Chinesa (gancao) para harmonizar fórmulas
Propriedades Terapêuticas do Alcaçuz
- Adaptogênico (ajuda o corpo a adaptar-se ao estresse)
- Anti-inflamatório (efeito estudado na redução de inflamações)
- Antibacteriano (atividade estudada contra bactérias)
- Antidiabético (efeito estudado sobre o açúcar no sangue)
- Antiespasmódico (uso tradicional para aliviar espasmos musculares)
- Antifúngico (atividade estudada contra fungos)
- Antioxidante (atividade estudada contra radicais livres)
- Antiviral (atividade estudada contra vírus)
- Demulcente (acalma e protege membranas mucosas)
- Expectorante (facilita a eliminação de muco)
- Hepatoprotetor (efeito protetor estudado sobre o fígado)
- Imunomodulador (efeito estudado sobre o sistema imunológico)
Fitoquímicos: Perfil Fitoquímico Detalhado do Alcaçuz
- Ácido 18β-glicirretínico (enoxolona)
- Ácidos fenólicos
- Anetol
- Cumarinas
- Flavonoides (glabridina, glabrena, isoliquiritina, liquiritina)
- Glicirrizina
- Óleos essenciais
- Polifenóis
- Polissacarídeos
- Triterpenoides
Formas de Preparo e Administração do Alcaçuz
- Cápsulas
- Decocção
- Extrato fluido
- Extrato seco
- Infusão
- Pomadas
- Tintura
- Xarope
Sinergia com Outras Plantas Medicinais
Fórmulas da Medicina Tradicional Chinesa
O alcaçuz (gancao) é um componente fundamental em muitas fórmulas da Medicina Tradicional Chinesa, onde é valorizado por sua capacidade de harmonizar os efeitos de outros ingredientes, já que sua natureza doce e neutra permite que seja combinado com uma vasta gama de ervas para potencializar seus efeitos, especialmente em fórmulas voltadas ao baço e ao estômago, à fadiga e a problemas respiratórios. Essa sinergia é considerada, na tradição chinesa, fundamental para a eficácia de muitas prescrições complexas.
Combinação com Outras Plantas Anti-Inflamatórias
A combinação do alcaçuz com outras plantas de uso tradicional anti-inflamatório, como a cúrcuma (Curcuma longa) ou o gengibre (Zingiber officinale), é empregada na tradição herbária para uma abordagem mais ampla no manejo de desconfortos inflamatórios, já que a glicirrizina do alcaçuz atuaria, segundo essa tradição, de forma complementar aos curcuminoides da cúrcuma e aos gingeróis do gengibre. Essa combinação é particularmente citada em formulações voltadas a dores articulares e musculares, sem que isso substitua avaliação e acompanhamento médico em quadros inflamatórios persistentes.
Suporte Digestivo
Para o suporte digestivo, o alcaçuz pode ser combinado com ervas como a camomila (Matricaria chamomilla) ou a hortelã-pimenta (Mentha × piperita), já que a ação demulcente do alcaçuz, que acalma as membranas mucosas, complementa as propriedades antiespasmódicas e carminativas tradicionalmente atribuídas a essas outras plantas. Essa combinação é tradicionalmente empregada no alívio de azia, indigestão, cólicas e outros desconfortos gastrointestinais leves, sempre com acompanhamento profissional em caso de sintomas persistentes.
Modo de Uso: Receitas e Protocolos de Uso do Alcaçuz
Chá de Alcaçuz para Tosse e Dor de Garganta
Ingredientes: uma pequena quantidade de raiz de alcaçuz seca e picada, água fervente, mel (opcional).
Preparação: adicionar a raiz de alcaçuz à água fervente, tapar e deixar em infusão por 10 a 15 minutos, coar e beber morno. Pode ser adoçado com mel para um sabor mais agradável e para reforçar o efeito calmante sobre a garganta, sendo tradicionalmente consumido ao longo do dia para auxiliar no alívio da tosse e da irritação da garganta, graças às propriedades demulcentes e expectorantes atribuídas ao alcaçuz. Por conter compostos que, em uso frequente ou prolongado, podem elevar a pressão arterial e reduzir o potássio no sangue, consulte um profissional de saúde antes de consumir regularmente, sobretudo em caso de hipertensão, doença cardíaca ou renal.
Decocção de Alcaçuz para Problemas Digestivos
Ingredientes: uma pequena quantidade de raiz de alcaçuz seca e picada, água.
Preparação: colocar a raiz de alcaçuz na água e levar ao fogo, ferver em fogo brando por cerca de 20 minutos, coar e deixar arrefecer um pouco antes de beber, preferencialmente antes das refeições, como apoio tradicional à digestão e ao alívio de sintomas de azia e indigestão, já que a decocção permite maior extração dos compostos ativos da raiz. Consulte um profissional de saúde antes de usar essa preparação de forma regular, especialmente se houver hipertensão, problemas renais ou cardíacos.
Xarope de Alcaçuz para Bronquite
Ingredientes: raiz de alcaçuz seca, água, mel.
Preparação: ferver a raiz de alcaçuz na água por cerca de 30 minutos, coar e descartar a raiz, adicionar o mel ao líquido coado e aquecer suavemente em banho-maria até o mel dissolver completamente e a mistura adquirir consistência xaroposa, armazenando-se o resultado em frasco de vidro escuro e esterilizado. É tradicionalmente tomado em pequenas doses ao longo do dia como apoio no alívio dos sintomas da bronquite e na facilitação da expectoração, mas não deve ser administrado a lactentes com menos de 1 ano devido à presença de mel, e a quantidade e a frequência de uso devem ser orientadas por um profissional de saúde.
As preparações acima seguem registros tradicionais e não substituem orientação profissional. Antes de qualquer uso interno, consulte as contraindicações e interações descritas neste artigo.
Terapias Associadas ao Alcaçuz
Ayurveda
Na medicina Ayurvédica, o alcaçuz, conhecido como Yashtimadhu, é amplamente utilizado para equilibrar os doshas Vata e Pitta, sendo valorizado por propriedades tradicionalmente descritas como rejuvenescedoras, anti-inflamatórias e demulcentes. É frequentemente empregado no apoio a problemas respiratórios e digestivos, além de ser considerado um tônico para a voz e a pele, já que sua natureza doce e fria ajudaria, segundo essa tradição, a acalmar o sistema nervoso e a promover clareza mental, sendo um ingrediente comum em formulações voltadas à saúde geral e ao bem-estar.
Fitoterapia Clínica
Na fitoterapia clínica moderna, o alcaçuz é utilizado sob diversas formas farmacêuticas, incluindo extratos padronizados, cápsulas e comprimidos, sendo os extratos frequentemente titulados em glicirrizina para maior padronização. A fitoterapia clínica investiga o uso do alcaçuz como apoio em úlceras gástricas, distúrbios hepáticos, condições inflamatórias e suporte adrenal, sempre sob prescrição individualizada, que considera as necessidades específicas de cada paciente e possíveis interações com outros medicamentos, dado seu potencial de interação medicamentosa.
Medicina Tradicional Chinesa (MTC)
Na Medicina Tradicional Chinesa, o alcaçuz, ou Gancao (甘草), é uma das ervas mais importantes e frequentemente utilizadas, sendo considerado um harmonizador capaz de moderar as propriedades de outras ervas em uma fórmula, além de tonificar o Qi do baço e do estômago, remover o calor e apoiar a desintoxicação segundo essa tradição. É empregado para tratar, na perspectiva tradicional, fadiga, palpitações, tosse com expectoração abundante e dores, e sua capacidade de harmonizar e potencializar os efeitos de outras ervas torna-o indispensável em muitas formulações clássicas da MTC.
Contraindicações e Efeitos Colaterais do Alcaçuz
Contraindicações Gerais
O alcaçuz é contraindicado em indivíduos com alergia conhecida a plantas da família Fabaceae. Mulheres grávidas devem evitar o consumo de alcaçuz em doses elevadas devido ao seu potencial efeito emenagogo, que pode estimular contrações uterinas e levar a parto prematuro, e indivíduos com hipertensão arterial, hipocalemia (baixos níveis de potássio no sangue), doenças cardíacas ou renais devem evitar o consumo de alcaçuz, pois a glicirrizina pode agravar essas condições. Crianças menores de 1 ano não devem consumir alcaçuz devido ao risco de botulismo quando combinado com mel.
Efeitos Colaterais Comuns
Os efeitos colaterais do alcaçuz são geralmente ligeiros e estão associados ao consumo excessivo ou prolongado, podendo incluir retenção de sódio e água, levando a edema e aumento de peso. Outros efeitos comuns são dores de cabeça, fadiga e fraqueza muscular, frequentemente sintomas de hipocalemia induzida pelo alcaçuz, e a aplicação tópica de preparações de alcaçuz pode ocasionalmente resultar em dermatite de contato em indivíduos sensíveis, sendo importante monitorar a ingestão para evitar esses efeitos.
Interações Medicamentosas
O alcaçuz pode interagir com diversos medicamentos, alterando sua eficácia ou aumentando o risco de efeitos adversos. A glicirrizina pode potencializar os efeitos de anticoagulantes como a varfarina, aumentando o risco de hemorragias, e pode também interagir com diuréticos, corticosteroides e medicamentos para a pressão arterial, alterando os níveis de eletrólitos e a pressão sanguínea. Indivíduos que tomam medicamentos para diabetes devem monitorar cuidadosamente os níveis de glicose, pois o alcaçuz pode ter efeito hipoglicemiante. Consulte sempre um profissional de saúde antes de combinar alcaçuz com outros medicamentos.
Curiosidades e Fatos Históricos do Alcaçuz
Origem do Nome
O nome científico Glycyrrhiza glabra tem origem grega, onde “glykys” significa doce e “rhiza” significa raiz, traduzindo-se literalmente como “raiz doce”, denominação que reflete a característica mais marcante da planta: o sabor intensamente doce de sua raiz, atribuído à glicirrizina. A palavra “glabra” significa “lisa”, referindo-se às suas vagens lisas, e a etimologia do nome destaca a importância histórica e cultural do alcaçuz como adoçante e planta medicinal.
Uso Antigo e Histórico
O alcaçuz tem uma história de uso que remonta a milhares de anos, tendo sido encontrado em túmulos de faraós egípcios, como o de Tutancâmon, o que indica seu valor na antiguidade. Gregos, romanos e chineses também utilizavam o alcaçuz para fins medicinais e culinários, e na Medicina Tradicional Chinesa ele é considerado uma das 50 ervas fundamentais, presença que, em diversas culturas antigas, sublinha sua importância e a vasta gama de aplicações que lhe foram atribuídas ao longo da história.
Adoçante Natural
A glicirrizina, o principal composto ativo do alcaçuz, é aproximadamente 30 a 50 vezes mais doce que o açúcar de cana, característica que faz do alcaçuz um adoçante natural valioso, amplamente utilizado na indústria alimentícia e de bebidas. Além do poder adoçante, a glicirrizina confere ao alcaçuz um sabor único e complexo, apreciado em doces, chás e outras preparações, e sua doçura duradoura, somada às propriedades tradicionalmente atribuídas à planta, torna-o uma alternativa interessante ao açúcar refinado.
Perguntas Frequentes sobre o Alcaçuz
O Chá de Alcaçuz É Seguro para Todos?
Não, o chá de alcaçuz não é seguro para todos. É contraindicado para mulheres grávidas, pessoas com hipertensão arterial, hipocalemia (baixos níveis de potássio no sangue) e doenças cardíacas ou renais, além de poder interagir com certos medicamentos, como anticoagulantes, diuréticos e corticosteroides. Crianças menores de 1 ano também devem evitar o consumo. É fundamental consultar um profissional de saúde antes de iniciar o uso do chá de alcaçuz, especialmente se houver alguma condição de saúde preexistente ou uso de medicação.
Qual a Dose Recomendada de Alcaçuz?
A dose de glicirrizina, o principal componente ativo do alcaçuz, geralmente considerada segura para pessoas saudáveis é de até 10 mg por dia, e o consumo excessivo, acima de 0,2 mg por kg de peso corporal por dia, pode levar a efeitos adversos significativos, como aumento da pressão arterial e hipocalemia. As doses variam conforme a forma de preparo (infusão, extrato, tintura) e a finalidade de uso, de modo que é fundamental seguir as recomendações de um profissional de saúde ou as instruções específicas do produto para evitar complicações.
O Alcaçuz Pode Ajudar na Digestão?
Sim, o alcaçuz é tradicionalmente utilizado como apoio à digestão e ao alívio de diversos desconfortos gastrointestinais. Suas propriedades demulcentes ajudam a acalmar e proteger as membranas mucosas do trato digestivo, sendo associado tradicionalmente a condições como azia, indigestão, gastrite e úlceras gástricas, e suas propriedades anti-inflamatórias podem contribuir para reduzir a irritação no sistema digestivo. O consumo de chá ou decocção de alcaçuz é uma forma tradicional de buscar esse alívio, mas não substitui avaliação médica em casos persistentes.
O Alcaçuz É Bom para a Tosse?
O alcaçuz é amplamente reconhecido, na tradição herbária, por propriedades benéficas ao sistema respiratório, sendo tradicionalmente utilizado no alívio da tosse. Suas propriedades expectorantes ajudam a fluidificar o muco e facilitam sua eliminação, enquanto as propriedades demulcentes acalmam a irritação da garganta e das vias respiratórias, sendo frequentemente empregado em xaropes e infusões voltados a tosses secas e produtivas, bronquite e outras condições respiratórias leves, sempre com acompanhamento profissional quando os sintomas persistem.
Alcaçuz e Regaliz São a Mesma Planta?
Sim: “regaliz” é apenas o nome popular usado no Brasil para a mesma espécie chamada de alcaçuz em Portugal, Glycyrrhiza glabra, sem diferença botânica entre eles. Em outros idiomas a planta recebe nomes como licorice (inglês), réglisse (francês) e liquirizia (italiano), todos referentes à mesma raiz doce usada há milênios na medicina tradicional e como adoçante natural.
Quais São as Principais Formas de Consumir o Alcaçuz?
O alcaçuz pode ser preparado como infusão, decocção, xarope, tintura, extrato fluido ou seco, além de estar disponível em cápsulas e pomadas de uso tópico. A escolha da forma de preparo costuma depender da finalidade tradicional de uso, seja o alívio de tosse e dor de garganta, o apoio à digestão ou o suporte a fórmulas da Medicina Tradicional Chinesa e da Ayurveda, sempre respeitando as contraindicações e a orientação de um profissional de saúde.
Aviso: este conteúdo é informativo e não substitui orientação de profissional de saúde. Consulte um médico ou fitoterapeuta antes de usar plantas medicinais, especialmente na gravidez, na lactação ou em uso de medicamentos.
Referências e Estudos Científicos
Ver Todas as 11 Referências Citadas
Estudos Científicos Peer-Reviewed (6)
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Leituras Complementares (1)
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